Prevenção do Suicídio

 na Juventude

Revista Espiritismo e Ciência, nº 23.

 

Por  Gerson Simões Monteiro

 

 

A juventude é a grande fase de descobertas. De experimentação de novos sentimentos e sensações. É justo neste período de transição entre os estágios infantil e adulto que o turbilhão dos mais diferentes pensamentos torna-se presente na mente do jovem, levantando conceitos, tabus e assuntos que eram tidos como certos e inabaláveis. O chão, outrora alicerçado pelos pais, aos poucos, passa a desvanecer-se sob seus pés, exigindo que ele, agora, construa seu próprio caminho. Nesse exato momento de decisão e reflexão, o jovem "imaturo" ou o adolescente que jamais possuiu um solo firme e estruturado por onde pudesse caminhar, se desorienta por completo e busca, em atitudes radicais, solucionar sua inquietação e desconforto com o mundo. Diante desse quadro, pode surgir então o comportamento suicida, que, por sua vez, pode ser dividido em gestos e tentativas suicidas. Os gestos estão relacionados a um comportamento de lesão auto-infligida, não havendo, necessariamente, a intenção de morrer; podem ser considerados como "comportamentos para chamar atenção". Já na tentativa, há a intenção do suicida em ser seriamente ferido ou morrer. Vale salientar que estudos sobre o assunto têm demonstrado que há elementos e situações que podem contribuir para tais gestos e comportamentos.


FATORES DE RISCO
A depressão é, certamente, o diagnóstico psiquiátrico mais observado em adolescentes que tentam o suicídio. Desesperança, transtornos de conduta, consumo de drogas, disfunção familiar, eventos estressantes, abusos (físicos, sexuais ou psicológicos) e fatores biológicos podem ser considerados os principais agentes causadores deste distúrbio. No entendimento dos técnicos do Ministério da Saúde, o suicídio já é considerado um problema de saúde pública e tem como principal causa a depressão. Esta doença, segundo a Organização Mundial de Saúde, atinge pelo menos 8% da população mundial, o que constitui, em termos do nosso país, aproximadamente 15 milhões de brasileiros em estado depressivo. Quase sempre o jovem que pensa em suicídio dá sinal dessa idéia através de um comportamento diferente no seu modo de viver, passando a buscar refúgio na solidão, isolando-se de tudo e de todos. Notam-se, principalmente, a falta de amigos e o isolamento, pois o jovem, por sua própria natureza, busca o grupo como forma de afirmação da sua identidade. Os pensamentos sobre suicídio não devem ser considerados sem importância ou vistos com indiferença. É falso o conceito de que "quem fala sobre suicídio não tenta nem tentará suicidar-se". Quaisquer que sejam os seus problemas, pensamentos como: "Eu preferia estar morto"; "Eu não posso fazer nada"; "Eu não agüento mais"; "Eu sou um perdedor e um peso para os outros"; e "Os outros vão ser mais felizes sem mim"; indicam que o jovem está correndo sérios riscos. Esse é o momento de ajudá-lo, procurando estar mais perto dele, demonstrando que a presença de pais e amigos lhe faz bem. Fazê-lo sentir-se amado é fundamental para levantar a sua auto-estima. É importante saber que o jovem com baixa auto-estima sente medo, ansiedade e outros estados negativos nos âmbitos físico e psicológico. Passa, em razão disso, a não se cuidar: apresenta aparência desleixada, olhar para baixo, cabeça curvada. Sente-se menor do que os outros, isolando-se dos amigos e do grupo a que está vinculado. Sem objetivos na vida, ele acaba entrando num processo depressivo de funestas conseqüências.


O PAPEL DA FAMÍLIA
A maioria das tentativas e das concretizações de suicídios entre jovens acontece principalmente em lares perturbados, com famílias desestruturadas; ou são oriundos de grupos familiares que apresentam doenças somáticas e/ou mentais; ou ainda, com jovens que têm problemas com a polícia ou com a justiça. Quantas vezes foram crianças não desejadas, em famílias de comportamento frio, sem carinho, tristes, inseguras, revoltadas; famílias com tendência à promiscuidade sexual e ao uso de álcool, fumo e drogas. Os atos dos jovens buscando a auto-eliminação são uma forma desesperada de conseguir carinho, de chamar a atenção. Logo, o papel da família é o de funcionar como eficaz antídoto ao suicídio.


DADOS ESTATÍSTICOS
Os índices do recém lançado Mapa da Violência IV (Júlio Jacobo Waiselfisz, 2004), da UNESCO, abrangendo o período entre 1993 e 2002, demonstram que os suicídios no Brasil passaram de 5.553 em 1993 para 7.715 em 2002, representando um aumento de 38,9%. No mesmo período, o aumento é bem superior ao registrado em óbitos por acidentes de transporte (19,5%), mas ainda está abaixo dos homicídios (62,3%). Entre os adolescentes e jovens de 15 a 24 anos, o aumento foi menor (30,8%), passando de 1.252 para 1.637 suicídios entre 1993 e 2002. As situações por Estado são bem diferenciadas: no Amapá, Maranhão e Paraíba, por exemplo, o número de suicídios de jovens quadruplicou. Já em Estados como São Paulo, Paraná e Distrito Federal, registrou-se a queda dos índices. Nas capitais, o crescimento dos suicídios no período 1993/2002 foi bem menor do que nos Estados como um todo: 38,9% para os Estados e 17,9% para as capitais. Na população jovem, essa diferença é maior ainda: 30,8% de aumento nos Estados, e só 4,9% nas capitais. Também verificamos que, nas capitais, os suicídios da população em geral cresceram bem mais do que os da faixa jovem. Dentre elas, destacam-se Macapá e Cuiabá, por terem mais que triplicado seu número absoluto de suicídios na população total, no período considerado. Entre os jovens das capitais, as taxas de suicídios (5 em 100 mil) são levemente maiores do que as da população total (4,4 em 100 mil), mas com tendência a cair. As maiores taxas, tanto para a população total quanto para a de jovens, podem ser encontradas nas regiões metropolitanas de Porto Alegre e Fortaleza. Relativizando os dados apresentados no referido Mapa segundo o tamanho da população, verifica-se que a taxa do Brasil no ano de 1993 foi de 3,7 suicídios para cada 100 mil habitantes. Com oscilações, ela foi crescendo lentamente para, em 2002, apresentar-se em 4,4 suicídios por 100 mil habitantes. Comparado com os restantes 66 países analisados, o Brasil apresenta baixas taxas de suicídios, ocupando o 57º lugar quando se trata de suicídios na população total, e o 53º nos suicídios juvenis.
Não obstante, o tema, tão grave quanto delicado, deve continuar a merecer a maior atenção de todos.


A QUESTÃO DA IDADE
A incidência etária nos óbitos por suicídio praticamente inexiste até os 10 anos. A partir desta idade, inicia-se uma forte escalada ascendente, para chegar à sua máxima expressão aos 22 anos, faixa que registrou 218 suicídios no ano de 2002. A partir daí, ocorre uma leve queda, diminuindo progressivamente o número absoluto à medida que a idade avança. A taxa geral de suicídios no mes¬mo período (1993/2002) cresceu 38,9% e, como no restante do mundo, subiu muito nas faixas mais idosas da população - que costumam sofrer com doenças graves, dificuldades financeiras ou, na terceira idade, viuvez e rejeição da família. No entanto, o que leva os estudiosos a se preocupar mais com os jovens é que a incidência de suicídios nesta faixa etária ocorre cada vez mais cedo e, muitas vezes, poderia ser evitada.


AÇÃO DOS ESPÍRITOS OBSESSORES
A obsessão é também uma das causas de muitos jovens darem fim à vida física. No livro de nossa autoria, Suicídio e Suas Conseqüências, apresentamos o depoimento de Hilda, espírito de uma jovem suicida, que reata seus padecimentos após a morte do corpo físico, deixando bem clara a causa do seu gesto infeliz. Segundo Hilda, além da sua rebeldia em não aceitar a vida com suas naturais dificuldades e frustrações, a influência de espíritos obsessores também foi um fator importante para levá-la ao auto-extermínio. Aliás, sobre este assunto, Allan Kardec, em O Evangelho Segundo o Espiritismo, esclarece que quase sempre a obsessão exprime a vingança que um espírito exerce e que, com freqüência, se radica nas relações que o obsediado manteve com ele em encarnação anterior. Esse fato pode ser constatado no seguinte trecho do seu depoimento, pela psicofonia do médium Francisco Cândido Xavier, registrado no livro Vozes do Grande Além:
"Fala-vos humilde companheira que ainda sofre depois de aflitiva tragédia no suicídio, alguém que conhece de perto a responsabilidade na queda a que se arrojou, infeliz. Obsediada fui eu, é verdade, jovem caprichosa, contrariada em meus impulsos afetivos, acariciei a idéia de fuga, menoscabando todos os favores que a Providência Divina me concedera à estrada primaveril. Acalentei a idéia do suicídio com volúpia e, com isso, através dela, fortaleci as ligações deploráveis com os desafetos de meu passado, que falavam mais alto no presente. Esqueci-me dos generosos progenitores, a quem devia ternura, dos familiares com os quais me empenhara em abençoadas dívidas de serviço; olvidei meus amigos, cuja simpatia poderia tomar por valioso escudo em justa defesa, e desviei-me do campo de sagradas obrigações, ignorando deliberadamente que elas representavam os instrumentos de minha restauração espiritual... Em razão disso, padeci, depois do túmulo, todas as humilhações que podem rebaixar a mulher indefesa...".


A TERAPIA
O espírito Hilda, no relato de sua dolorosa experiência, destaca que a sua rebeldia em não aceitar a vida, com as naturais dificuldades da juventude, gerou frustrações, e aconselha como os jovens devem proceder para se defenderem da idéia nefasta do suicídio (Chico Xavier, 1990): "Cumpramos nossas obrigações, visitemos o amigo enfermo, atendamos à criança desventurada, procuremos a boa execução de nossas tarefas, busquemos o convívio do livro nobre, tentemos a conversação robusta e edificante, refugiemos-nos no santuário da prece e devotemos-nos à felicidade do próximo instalando-nos sob a tutela do bem e agindo sempre contra o pensamento insensato, porque, através dele, a obsessão se insinua, a perseguição se materializa e, quando acordamos, diante da própria responsabilidade, muitas vezes a nossa consciência chora tarde demais".