A Bíblia e o Espiritismo

Revista Espiritismo e Ciência, nº 21.

 

Por  Severino Celestino da Silva

 

 A Bíblia é uma biblioteca constituída de psicografias e fatos de natureza mediúnica. Foram os profetas, grandes médiuns, que nos trouxeram a Bíblia, um repositório de profundas mensagens espirituais que, ainda hoje, estão atuais e servem de roteiro para os homens.
A palavra Bíblia vem do grego (bíblia = plural de biblion ou bíblias - livro); portanto, é um conjunto de livros.
Na língua hebraica, a Bíblia chama-se O Tanach (o vocábulo é masculino) e constitui o livro sagrado dos hebreus. Narra a história da saída de Abraão da cidade de Ur, na Caldéia, em busca da terra prometida (Canaan). A palavra "hebreu" vem do hebraico ever Civri), e pode ter dois significados: em Gênesis, 14:13, Ever (hebreu) é uma denominação dada a Abraão. Desta forma, 'ivrim seriam os descendentes de Ever (Abraão), e o termo designaria grupos étnicos.
Para as religiões ocidentais, a Bíblia divide-se em duas grandes partes, chamadas respectivamente de Velho Testamento e Novo Testamento, este último constituído pelos livros sagrados do Cristianismo e das religiões dele derivadas, ou seja: Igreja Católica, Protestante, Ortodoxa Grega, Ortodoxa Russa, Armênia, Copta, Maronita, etc.
O termo "testamento" vem do hebraico brit, que significa "aliança", do grego (diathéke) e, finalmente, do latim (testamentum), significando a antiga Aliança do Sinai para o Judaísmo e a Nova Aliança de Jesus, o Cristo, para o Cristianismo.
O hebraico foi a língua utilizada para a escrita da Bíblia, ressalvando o caso dos livros de Daniel e Esdras, que foram escritos em aramaico. A Bíblia que nós temos em língua portuguesa passou por diversas traduções até chegar à situação atual. Conseqüentemente, sofreu muitas alterações e interpolações que culminaram em grande perda de sua essência.
Em minha obra intitulada "Analisando as Traduções Bíblicas", demonstrei todos os fatos históricos que envolveram essas traduções, e demonstrei, na língua original (o hebraico), onde e como ocorreram essas modificações. Não sou contra a Bíblia, pelo contrário; defendo a sua essência espiritual em sua língua original, e considero sua mensagem perfeita e indispensável para os que querem chegar a Deus.
No entanto, não entendo como os que se dizem conhecedores e estudiosos dos textos bíblicos não observam quantos fenômenos mediúnicos existem na Bíblia. Não sei se é preconceito ou ignorância para com os assuntos que se relacionam com o Espiritismo.
Do Gênesis ao Apocalipse, encontramos situações que caracterizam fenômenos considerados sobrenaturais pelos homens. Todos os fatos sobrenaturais nela existentes podem ser perfeitamente entendidos e explicados pela Doutrina Espírita.
A Bíblia e o Espiritismo não se opõem, mas ao contrário, se completam. Os ensinamentos de Moisés contidos na Primeira Aliança não condenam o Espiritismo, pois que este nem existia quando Moisés escreveu o Pentateuco (a Tora).
A doutrina espírita nos ensina a respeitar todos os princípios religiosos, pois que todos conduzem a Deus. No entanto, muitos militantes de outras religiões acham que condenar o Espiritismo vai fazer com que ele deixe de existir ou seja destruído. O Espiritismo não é invenção ou criação dos homens: é a doutrina dos espíritos, que existe independentemente da vontade humana. Deus é espírito, nos informa João em seu evangelho. Portanto, o Espiritismo constitui uma mensagem divina que veio para esclarecer os fenômenos espirituais que nos cercam e proclamar a imortalidade da alma.
Os fenômenos mediúnicos, da época antiga, que se encontram na Bíblia, não são diferentes dos que existem hoje. O que muda é a época, mas os fenômenos continuam e podem ser perfeitamente explicados através do Espiritismo.
Hoje nós temos os médiuns. Naquela época, existiam os neviim, que os gregos chamaram de profhétes (prof»thj), que são os profetas. Todos são intermediários do mundo espiritual com o mundo material em que vivemos. Portanto, nada mudou. A mensagem divina continua chegando por intermédio daqueles que Deus envia para chamar e alertar os homens da existência divina e para transformação moral da humanidade.


APRESENTAREMOS A SEGUIR UM BREVE histórico com base na Bíblia, para que o leitor possa tirar suas conclusões com relação à Doutrina Espírita, fenômenos mediúnicos, navi, profeta e médium.


A palavra profeta, em hebraico, se chama navi ('iban), no plural, neviim (£yy'bEnii). Apresenta ainda outros significados como roêh (vidente). Veja I Samuel 9:9: "Antigamente em Israel todos que iam consultar IAHVÉH assim diziam: vinde, vamos ter com o vidente (roêh); porque aquele que hoje se chama profeta (navi), se chamava outrora vidente (roêh)".
A palavra vidente, em hebraico, também significa chozêh, pois, consultando o texto original, encontramos citações que usam o termo roêh, enquanto outras citam chozêh, como veremos adiante. Portanto, o vidente era o homem a ser interrogado quando se queria consultar a Deus ou a um espírito, e a sua resposta era considerada resposta de Deus (Obs.: roêh inicia com a letra hebraica reish (rõ), e chozêh inicia com a letra chêt (xõ)).
O termo "profeta" chegou ao português derivado do grego prophétes, que significa "alguém que fala diante dos outros". No hebraico, o significado é bem mais amplo; possui uma raiz acádica que significa "chamar", "falar em voz alta", e interpretam-no como "orador, anunciador".