Desespero, revolta, por quê?

Reformador, março 2002 . FEB

 

Autor: Mauro Paiva Fonseca

 

O desespero e a revolta são estados temporários de insensatez, que toldam a razão e obscurecem o raciocínio; e o que é ainda mais importante: jamais oferecem soluções para erradicar as causas originadoras desses estados. A exacerbação desses dois sentimentos poderá atingir seu clímax, com o estado colérico, precursor de conseqüências graves e imprevisíveis, ou da depressão profunda, que incapacita a criatura para a reação libertadora. A fim de superar tais situações, indispensável buscar, através do raciocínio, os conhecimentos sobre as origens dos acontecimentos da vida. Para isso, necessário considerar, previamente, que o acaso não existe! Que a todos acontecimentos presidem razões lógicas e justas. Que Deus, infinito amor, bondade e justiça, nenhum interesse tem em punir, castigar ou fazer sofrer suas criaturas; Ele preside o curso da vida no Universo através de leis perfeitas, invariáveis e automáticas. A lógica e justiça imprimidas aos acontecimentos da existência não poderão, evidentemente, estar circunscritas ao âmbito de uma única existência da alma.
Dentre as leis que presidem a vida, destaca-se, como mais diretamente ligada ao nosso assunto, a Lei de Causa e Efeito, segundo  qual toda causa gera um efeito que lhe é correspondente, determinando que da natureza da causa dependa a natureza do efeito. E com base nesse conceito que Jesus adverte: "A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória." Ninguém que plantou urtiga poderá colher rosas! Este raciocínio mostra que cada um é o arquiteto do próprio destino, construindo com o livre-arbítrio dos pensamentos, palavras e atos a liberdade dos justos, ou o cativeiro dos devedores, a calma dos pacíficos, ou a angústia dos aflitos, a treva, ou a luz para iluminar o próprio caminho.
O desesperado e o revoltado não percebem este fato, e invariavelmente buscam um responsável, culpando tudo e todos por sua desventura. Porém, se examinassem com isenção de ânimo a situação que os infelicita, perceberiam que "não paga o justo pelo pecador", por isso ninguém será obrigado a pagar o que não deva, e que os seus sofrimentos são causados pelo mau uso que hajam feito da liberdade concedida pelo Criador às suas criaturas. O que acontece, via de regra, é  que, habituado ao menor esforço, o homem busca, à sua volta, os recursos que o possam livrar do confronto com as suas privações, com  a própria consciência, negligenciando a imperiosa necessidade dos esforços que deverá envidar por sua libertação espiritual. Sendo o pensamento a matriz dos atos da vida, deverá estar sempre sob permanentes e intensos cuidados, pois vivemos imersos num oceano de energias resultantes dos pensamentos dos que nos cercam, com os quais poderemos nos sintonizar, atraindo-os, e, dependendo da sua natureza, sofrendo-lhes as influências, boas ou más. Claro está que ninguém deverá acomodar-se no conformismo inerte, pois a encarnação será sempre uma nova oportunidade de luta, de trabalho renovador, de esperanças futuras, que jamais deverão ser desprezadas, ou substituídas pelo desespero e pela revolta, que nada realizam, nada constroem, e apenas retardam o progresso, ceifando a paz e a serenidade na vida dos homens. Desespero e revolta são, assim, graves desrespeitos à suprema justiça e infinita bondade de Deus, que cria a todos livres para fazerem dessa liberdade o uso que lhes aprouver, determinando, todavia, que a cada um será concedida a quota de felicidade proporcional aos esforços empregados no rumo da própria evolução: "A cada um, conforme suas obras."