Amar sem amarrar

Reformador, agosto/2008 . FEB

 

 

Autor: Richard Simonetti

 

 

Perguntam-me, freqüentemente, o que podemos fazer por familiares desencarnados, que saibamos não preparados para enfrentar o retorno à vida espiritual.


Três iniciativas são básicas:


Oração.
É um refrigério para as almas penadas, aquelas que se situam perplexas ante as realidades espirituais que insistiram em ignorar no desdobramento de suas experiências.
Quando oramos pelos desencarnados, não só os beneficiamos com vibrações balsamizantes como evocamos, em favor deles, a assistência dos amigos espirituais.

 

Serenidade.
Os recém-desencarnados permanecem em estreita sintonia com os familiares e são muito sensíveis às suas vibrações. O desespero, a revolta, a inconformação, não apenas colocam em cheque nossa crença, como atingem os que partiram, exacerbando suas perplexidades e sofrimentos.


Normalidade.
Se sofro um acidente e perco um membro, devo aprender a viver sem ele, adaptando-me à nova situação. Caso contrário, cairei em depressão e desequilíbrio, que apenas vão exacerbar o problema. A morte de um ente querido é uma amputação psicológica. Sentiremos falta, tanto maior quanto mais fortes os elos do amor, mas é preciso que nos habituemos a viver sem ele, conscientes de que devemos seguir em frente, em nosso próprio benefício. Sem esse empenho, fatalmente nos desajustaremos, com reflexos negativos no ânimo daquele que partiu.

 

Não raro, ao invés do desencarnado perturbar o encarnado, de quem se aproxima, carente, sofrido, ocorre o contrário. Pode parecer inusitado, amigo leitor, mas a Doutrina Espírita nos fala de obsessões de encarnados sobre desencarnados. Lembro de Roberval, modesto servidor público, pai de três filhos, casado com Ifigênia, mulher de bons princípios, preocupada com a família, mas extremamente apegada ao marido, amor possessivo. Era Roberval pra cá, Roberval pra lá, em efusões amorosas extremadas que acabavam por aborrecê-lo, tirando-lhe a liberdade. Não fosse a sua índole pacata, haveria sérios conflitos entre eles. Mel demais sempre enjoa. Quando Roberval desencarnou, repentinamente, vitimado por um enfarto, foi um transtorno para Ifigênia. Não se conformava com a morte do bem-amado, razão de sua existência. Lamuriava-se em oração, questionando os desígnios divinos. E chamava pelo marido.
– Ah! Roberval, onde anda você, minha vida? E, dia e noite, continuava a história do Roberval pra cá, Roberval pra lá! Não dava sossego para o pobre marido, mesmo depois de morto, porquanto suas vibrações o atingiam em cheio, reclamando sua presença, aprisionando-o ao lar. Tanto se perturbou que os benfeitores espirituais decidiram interná-lo em nova encarnação.
Foi a solução para livrá-lo da pressão desajustada da esposa inconformada. Por uma questão de afinidade e disponibilidade, ele reencarnou como filho de sua filha. Por sugestão insistente de Ifigênia, deram o nome do avô à criança.
Roberval reencarnado recebeu o mesmo nome. Como a jovem mãe tinha compromissos profissionais o dia inteiro, decidiu confiar a criança à sua mãe. Pobre Roberval!
O dia todo se via às voltas com os excessivos zelos de Ifigênia,
agora sua avó.
Roberval pra cá, Roberval pra lá!
Amor que amarra é egoísmo.
É preciso amar sem prender.
Ótimo quando agimos assim.
Nossos amados partem em paz.
Em paz ficamos nós.