Comentários: Allan Kardec

 

 

Em consideração e como aplicação das idéias que precedem, damos a seguir a Oração dominical desenvolvida. Se algumas pessoas acham que aqui não há lugar para um documento desta natureza, lembrar-lhes-íamos que a nossa Revista não é só uma coletânea de fatos, e que seu quadro abarca tudo o que pode ajudar ao desenvolvimento moral. Foi um tempo em que os fatos de manifestações só tinham o privilégio de interessar os leitores; mas hoje que o objetivo sério e moralizador do Espiritismo é compreendido e apreciado, a maioria dos adeptos nele procuram antes o que toca o coração do que aquilo que apraz ao espírito; é, pois, àqueles que nos dirigimos nesta circunstância. Por esta publicação, sabemos ser agradáveis a um grande número, senão a todos. Só isto nos teria decidido, sem outras considerações, sobre as quais devemos guardar silêncio, e nos teriam determinado fazê-lo neste momento antes que num outro.

 

ORAÇÃO DOMINICAL DESENVOLVIDA

 

I. PAI NOSSO, QUE ESTAIS NOS CÉUS, QUE O VOSSO NOME SEJA SANTIFICADO !

Cremos em vós, Senhor, porque tudo revela o vosso poder e à vossa bondade. A harmonia do Universo testemunha uma sabedoria, uma prudência e uma previdência que ultrapassam todas as faculdades humanas; o nome de um ser soberanamente grande e sábio está inscrito em todas as obras da criação, desde o talo de erva e o menor inseto até os astros que se movem no espaço; portada a parte vemos a prova de uma solicitude paternal; por isso, cego é aquele que não vos reconhece em vossas obras, orgulhoso aquele que não vos glorifica, ingrato aquele que não vos dá ações de graça.

 

II. QUE VOSSO REINO CHEGUE !

Senhor, destes aos homens leis cheias de sabedoria e que fariam a sua felicidade, se as observassem. Com essas leis, fariam reinar entre eles a paz e a justiça;se entre ajudariam mutuamente, em lugar de se prejudicarem, como o fazem; o forte sustentaria o fraco no lugar de esmagá-lo; evitaria os males que engendram os abusos e os excessos de todos os gêneros. Todas as misérias deste mundo vêm da violação de vossas leis, porque não há uma só infração que não tenha suas conseqüências fatais. Destes ao animal o instinto que lhe traça o limite do necessário, e com isso ele se conforma maquinalmente; mas ao homem, além desse instinto, destes a inteligência e a razão; deste-lhe também a liberdade de observar ou de infringir aquelas de vossas leis que lhe concernem pessoalmente, quer dizer, de escolher entre o bem e o mal, a fim de que haja o mérito e a responsabilidade de suas ações. Ninguém pode pretextar ignorância de vossas leis, porque, em vossa previdência paternal, quisestes que elas fossem gravadas na consciência de cada um, sem distinção de culto nem de nações; aqueles que as violam, é que vos desconhecem. Dia virá, segundo a vossa promessa, em que todos as praticarão; então, a incredulidade terá desaparecido; todos vos reconhecerão como soberano Senhor de todas as coisas, e o reino de vossas leis será vosso reino sobre a Terra. Dignai-vos, Senhor, apressar esse advento, dando aos homens a luz necessária para conduzi-los no caminho da verdade.

 

III. QUE A VOSSA VONTADE SEJA FEITA NA TERRA, COMO NO CÉU !

Se a submissão é um dever do filho com relação ao pai, do inferior para com seu superior, quanto não deve ser maior a da criatura com relação ao seu Criador! Fazer a vossa vontade, Senhor, é observar vossas leis e submeter-se sem murmurar aos vossos decretos divinos; o homem a elas se submeterá quando compreender que sois atonte de toda sabedoria, e que sem vós nada pode; então fará a vossa vontade na Terra, como os eleitos no céu.

 

IV. DAI-NOS O NOSSO PÃO DE CADA DIA.

Dai-nos a alimento para a manutenção das forças do corpo; dai-nos também o alimento espiritual para o desenvolvimento de nosso Espírito. O animal encontra sua pastagem, mas o homem a deve à sua atividade e aos recursos de sua inteligência, porque o criastes livre. Vós lhe dissestes: "Tirarás teu alimento da terra com o suor de teu rosto." Por aí, fizeste-lhe uma obrigação do trabalho, a fim de que ele exercite a sua inteligência pela procura dos meios de prover suas necessidades e seu bem-estar, uns pelo trabalho material, os outros pelo trabalho intelectual; sem o trabalho, ele permaneceria estacionário e não poderia aspirar à felicidade dos Espíritos superiores. Secundais o homem de boa vontade que se confia a vós para o necessário, mas não aquele que se compraz na ociosidade e gostaria de tudo obter sem trabalho, nem aquele que procura o supérfluo. Quantos deles sucumbem por sua própria falta, por sua incúria, sua imprevidência ou sua ambição, e por não ter querido se contentar com aquilo que lhes tínheis dado! Aqueles são os artífices de seu próprio infortúnio e não têm o direito de se lamentarem, porque são punidos por onde pecaram. Mas aqueles mesmos, não os abandonais, porque sois infinitamente misericordioso; vós lhes estendeis mão de socorro desde que, como o filho pródigo, retornem sinceramente a vós. Antes de nos lamentar de nossa sorte, perguntemos-nos se não é obra nossa; a cada infelicidade que nos chegue, perguntemos-nos se não dependeu de nós evitá-la; mas digamos também que Deus nos deu inteligência para nos tirar do lamaçal, e que depende de nós dela fazer uso. Uma vez que a lei do trabalho é a condição do homem sobre a Terra, dai-nos a coragem e a força para cumpri-la; dai-nos também a prudência, a previdência e a moderação, a fim de não perder-lhe o fruto. Dai-nos, pois, Senhor, nosso pão de cada dia, quer dizer, os meios de adquirir pelo trabalho, as coisas necessárias à vida, porque ninguém tem o direito de reclamar o supérfluo. Se o trabalho não nos for possível, nos confiamos à vossa divina Providência. Se entra em vossos desígnios de nos experimentar pelas mais duras privações, apesar de nossos esforços, as aceitamos como uma justa expiação das faltas que pudemos cometer nesta vida ou numa vida precedente, porque sois justo; sabemos que não há penas imerecidas, e que não castigais jamais sem causa. Preservai-nos, ó meu Deus, de conceber a inveja contra aqueles que possuem o que não temos, nem mesmo contra aqueles que têm o supérfluo, quando nos falta o necessário. Perdoai-lhes se esquecem a lei de caridade e de amor ao próximo, que vós lhes ensinastes. Afastai também de nosso espírito o pensamento de negar a vossa justiça, vendo a prosperidade do mau que acabrunha às vezes o homem de bem. Sabemos, agora, graças às novas luzes que vos aprouve nos dar, que a vossa justiça recebe sempre seu cumprimento e não falta a ninguém; que a prosperidade material do mau é efêmera, como sua existência corpórea, e que ela terá terríveis retornos, ao passo que a alegria reservada àquele que sofre com resignação será eterna.

 

V. PERDOAI AS NOSSAS DÍVIDAS, COMO NÓS AS PERDOAMOS ÀQUELES QUE NOS DEVEM.  -  PERDOAI AS NOSSAS OFENSAS, COMO PERDOAMOS ÀQUELES QUE NOS OFENDERAM.

Cada uma de nossas infrações às vossas leis, Senhor, é uma ofensa para convosco, e uma dívida contraída que nos será preciso, cedo ou tarde, pagar. Solicitamos-lhes a remissão de vossa infinita misericórdia, sob a promessa de fazer nossos esforços para não contrair novas dívidas. Fizeste-nos uma lei expressa da caridade; mas a caridade não consiste somente em assistir seu semelhante na necessidade; ela está também no esquecimento e no perdão das ofensas. Com que direito reclamaríamos a vossa indulgência, se ela faltasse em nós mesmos com relação àqueles dos quais temos a nos lamentar? Dai-nos, ó meu Deus! a força de abafar em nossa alma todo ressentimento, todo ódio e todo rancor; fazei com que a morte não nos surpreenda com um desejo de vingança no coração. Se vos aprouver nos retirar hoje mesmo deste mundo, fazei com que possamos nos apresentar a vós puros de toda animosidade, a exemplo do Cristo, cujas últimas palavras foram por seus carrascos. As perseguições que os maus nos fazem suportar fazem parte de nossas provas terrestres; devemos aceitá-las sem murmurar, como todas as outras provas, e não maldizer aqueles que, por suas maldades, nos abrem o caminho da felicidade eterna, porque nos dissestes, pela boca de Jesus: "Bem-aventurados aqueles que sofrem pela justiça!" Bendigamos, pois, a mão que nos fere e nos humilha, porque as contusões do corpo fortalecem a nossa alma, e seremos elevados de nossa humildade. Bendito seja o vosso nome, Senhor, por nos terdes ensinado que a nossa sorte não está irrevogavelmente fixada depois da morte; e encontraremos, em outras existências, o meio de resgatar e de reparar nossas faltas passadas, de cumprir numa nova vida o que não podemos fazer nesta, pelo nosso adiantamento. Por aí se explicam, enfim, todas as anomalias aparentes da vida; é a luz lançada sobre o nosso passado e o nosso futuro, o sinal manifesto de vossa soberana justiça e de vossa bondade infinita.

 

VI. NÃO NOS ABANDONEIS À TENTAÇÃO, MAS LIVRAI-NOS DO MAL.

Dai-nos, Senhor, a força de resistir às sugestões dos maus Espíritos que tentarem nos desviar do caminho do bem, nos inspirando maus pensamentos. Mas nós somos, nós mesmos, Espíritos imperfeitos, encarnados sobre esta Terra para expiar e nos melhorar. A causa primeira do mal está em nós, e os maus Espíritos não fazem senão aproveitar nossos pendores viciosos, nos quais nos mantêm, para nos tentar. Cada imperfeição é uma porta aberta à sua influência, ao passo que são impotentes e renunciam a toda tentativa contra os seres  perfeitos. Tudo o que poderíamos fazer para afastá-los é inútil, se não lhes opomos uma vontade inabalável no bem, e uma renúncia absoluta ao mal. É, pois, contra nós mesmos que devemos dirigir nossos esforços, e então os maus Espíritos se afastarão naturalmente, porque é o mal que os atrai, ao passo que o bem os repele. Senhor, sustentai-nos em nossa fraqueza; inspirai-nos, pela voz de nossos anjos guardiães e dos bons Espíritos, a vontade de nos corrigir de nossas imperfeições, a fim de fechar, aos Espíritos impuros, o acesso à nossa alma. O mal não é obra vossa, Senhor, porque a fonte de todo bem não pode nada engendrar de mal; somos nós mesmos que o criamos, infringindo vossas leis, e pelo mau uso da liberdade que nos destes. Quando os homens observarem as vossas leis, o mal desaparecerá da Terra, como já desapareceu nos mundos mais avançados. O mal não é uma necessidade fatal para ninguém, e não parece irresistível senão àqueles que a ele se entregam com complacência. Se temos a vontade de fazê-lo, podemos ter também a de fazer o bem; é porque, ó meu Deus, pedimos, a vossa assistência e a dos bons Espíritos para resistir à tentação.

 

VIl. ASSIM SEJA.

Praze a vós, Senhor, que nossos desejos se cumpram! Mas nós nos inclinamos diante de vossa sabedoria infinita. Sobre todas as coisas que não nos é dado compreender, seja feito segundo vossa santa vontade, e não segundo a nossa, porque não quereis senão nosso bem, e sabeis melhor do que nós o que nos é útil. Nós vos dirigimos esta prece, ó meu Deus! por nós mesmos, e por todas as almas sofredoras, encarnadas e desencarnadas, por nossos amigos e nossos inimigos, por todos aqueles que reclamam a nossa assistência. Pedimos sobre todos a vossa misericórdia e a vossa bênção.

 

Nota. Pode-se formular aqui o que se agradece a Deus, e o que se pede para si mesmo e para outrem.